domingo, 12 de setembro de 2010

XII

O quê? Já acabou? Tão cedo?! Procuraste no sótão? Desceste à cave? Não há mesmo mais nada? Tão cedo? Acredito. Estava-se mesmo a ver... mais cedo ou mais tarde ficaríamos novamente sem nada... Fizemos durar o mais que podíamos penso eu. Ordem e método para não gastar tudo, e agora acabou. Mesmo assim, esse esforço todo parece-me agora abominável, mais valia ter gasto tudo de uma vez. Agora estamos velhos.
Doem-me os olhos, doem-me tanto os olhos, quando tento olhar em frente, o ardor torna a visão insuportável, desviar o olhar não me é permitido devido ao inchaço. Resta-me então fecha-los.
Peço-te, põe-me esse cubo de açúcar na boca enquanto me deito por um instante. O açúcar é o que nos resta agora que acabou. Esses pequenos e doces grãos brancos têm a propriedade de tornar tudo um pouco menos insuportável. Põe-me esse açúcar na boca enquanto experimento fechar os olhos.
Tu, porque a pele das minhas mãos há dias que não para de se soltar ao ponto de já fazer ferida. Já não posso tocar em nada sob pena de que se soltem de vez dos braços e me esvaia em sangue, o pouco que me resta. Tu, e por mais razão nenhuma tu, que mesmo agora não compreendes.
Vou deitar-me na cama, agora mesmo que o dia ainda vai a meio, e à medida que a minha boca seca absorve a custo o açúcar, vou dormitar, naquele estado de semi-consciência de que só alguns se dão conta, como quem está prestes a acordar e não quer acordar, e vai falando, naquele limbo entre o sono e a vigília com que já lá não está.